Quem passa pela MG-352 sente na pele: a estrada aguenta o tráfego, mas as vicinais que ligam as propriedades ao asfalto viraram gargalo. Na última reunião da associação rural de Uberaba, o tema dominou a mesa — e não foi exagero de quem gosta de reclamar.
O trecho mais criticado fica entre duas propriedades de grãos e uma rota usada por caminhões de insumo. Quando chove forte, a lama reduz a passagem a uma faixa estreita. Motoristas experientes conhecem os piores pontos de memória; quem vem de fora nem sempre escapa do atolamento.
João Pereira, produtor de milho e soja na zona rural, contou que perdeu parte da colheita porque dois caminhões ficaram atolados no mesmo trecho em menos de uma semana. "A gente não pede asfalto em tudo", disse ele. "Mas quando chove, vira lama e o prejuízo é nosso."
O que produtores e caminhoneiros relatam
Na conversa com a Região, caminhoneiros falaram em horários de pico que concentram dezenas de veículos carregados. Um deles, Sebastião Alves, disse que às vezes espera mais de uma hora para cruzar um trecho de poucos quilômetros. "Não é só incômodo", comentou. "É diesel, é prazo de entrega e, se a carga estraga, ninguém devolve o prejuízo."
Cooperativas da região tentam organizar saídas em turnos e avisar associados sobre condições da via. A medida ajuda, mas não resolve a raiz do problema: manutenção irregular e drenagem precária em trechos que nunca entraram na lista prioritária de obras.
O que muda na prática
A prefeitura informou que um estudo de drenagem está em andamento para três trechos prioritários. O prazo divulgado é de 90 dias para o laudo — e aí sim, segundo a Secretaria de Obras, entra a fila de obras viáveis no orçamento municipal.
Quem produz no interior sabe: estrada ruim não é detalhe. É custo, atraso e, às vezes, safra perdida.
Enquanto isso, cooperativas da região testam rotas alternativas e horários de escoamento para evitar congestionamento nos piores pontos. A ideia é simples: se a estrada não melhora de um dia para o outro, pelo menos se organiza quem depende dela.
Produtores menores sentem ainda mais o efeito em cadeia. Sem caminhão no horário, a venda atrasa; com atraso, o comprador renegocia preço. "Parece detalhe de estrada", resume João Pereira, "mas no fim do mês aparece na planilha."
Associações rurais pedem encontro com estado e município para discutir responsabilidade sobre trechos e prazos de intervenção. A expectativa é que o laudo de drenagem traga não só diagnóstico, mas prioridade clara — algo que a região espera há mais de uma safra.
O que vem pela frente
Representantes da associação rural marcaram nova reunião para julho, com convite aberto à Secretaria de Obras e a transportadoras da região. A pauta inclui mapa dos trechos críticos, proposta de manutenção emergencial e discussão sobre divisão de responsabilidade entre município, estado e proprietários de linha.
Enquanto isso, a colheita não espera. Produtores seguem alternando horários, reforçando combinados entre vizinhos e registrando prejuízos para eventual pedido de apoio técnico. "A gente aprendeu a conviver com a estrada ruim", diz João Pereira. "Mas conviver não significa aceitar."
Transportadoras locais também cobram sinalização provisória nos trechos mais críticos — placas simples que, segundo motoristas, já evitariam parte dos atolamentos quando chove de repente. A proposta apareceu na reunião da associação e deve ser encaminhada junto com o pedido de laudo.
Para quem mora longe do centro, essas notícias do interior de MG não são "notícia de jornal" — são rotina. E é por isso que a Região acompanha de perto: porque o que parece local afeta mercado, emprego e a mesa de milhares de famílias.